Do caipira ao agronejo: sertanejo se reinventa e lidera audiência no Brasil
Gênero que começou a ser gravado em 1929 incorporou referências urbanas e de outros estilos até chegar ao topo do streaming.
A música sertaneja, que surgiu nas gravações brasileiras na passagem dos anos 1920 para os 1930, tornou-se o gênero associado ao hit mais ouvido do país. Segundo o levantamento mais recente da Pró-Música Brasil, baseado na soma de execuções em plataformas de streaming, a canção "Eu Te Seguro", de Panda, ocupa essa posição.
O sertanejo atual, porém, tem características distantes da música caipira registrada no início de sua história. Pesquisadores ouvidos pelo g1 relacionam essa transformação à urbanização do país, à migração do campo para as cidades e à incorporação de referências de outros gêneros musicais e da cultura de massa.
Da moda de viola ao mercado fonográfico
Um marco da entrada do segmento no mercado foi a gravação de "Jorginho do Sertão", em 1929, na voz de Mariano e Caçula. A composição de Cornélio Pires foi produzida de forma independente depois que gravadoras não demonstraram interesse pela música caipira, segundo a pesquisadora Anita Carvalho.
Para o professor Ivan Vilela, da USP, a primeira fase comercial do gênero foi até a década de 1940. A difusão pelo rádio ajudou migrantes a manter vínculos com referências do campo enquanto passavam a viver em grandes cidades.
O pesquisador Leandro Valentin afirma que a música caipira se consolidou no mercado fonográfico com a atuação de músicos urbanos dedicados ao estilo. Naquele período, estima-se que o gênero já respondesse por 40% da indústria fonográfica brasileira, ainda em formação.
Rádio ampliou o público
Na fase seguinte, a produção alcançou cidades menores e áreas rurais pelas ondas do rádio. Tonico & Tinoco, formados pelos irmãos João Salvador Perez e José Salvador Perez, são apontados por Vilela como os principais nomes desse período.
Dados históricos citados por pesquisadores ouvidos pelo g1.
- 1929Primeira gravação"Jorginho do Sertão"
- 40%Mercado fonográficoestimativa da época
- quase 1 milCanções gravadaspor Tonico & Tinoco
- 83Discos lançadospor Tonico & Tinoco
- mais de 40 milShows realizadospor Tonico & Tinoco
A dupla gravou quase 1 mil canções, lançou 83 discos e fez mais de 40 mil shows, de acordo com o pesquisador. Vilela estima que os dois tenham vendido cerca de 150 milhões de discos e considera que o sucesso ajudou a levar a música caipira a ouvintes sem relação direta com o meio rural.
Mudanças nas letras e nos temas
Gisele Jordão, coordenadora da ESPM, descreve uma mudança nas narrativas do sertanejo ao longo das décadas. As canções passaram de relatos sobre trabalho agrícola e histórias locais para a nostalgia de migrantes nas cidades e, mais tarde, para a valorização da figura do boiadeiro com a expansão pecuária no Centro-Oeste.
Com o tempo, o gênero se afastou gradualmente das referências rurais e reforçou o romantismo. Neste século, ganharam espaço temas como paquera, bebida, desencontros amorosos e consumo ostentatório.
O que explica a permanência do gênero
O historiador Gustavo Alonso, da UFPE, define as sucessivas mudanças como um processo de modernização que incorpora valores e músicas de outras origens. Para os pesquisadores, a trajetória do sertanejo acompanha transformações sociais e urbanas do Brasil, sem abandonar por completo seus vínculos com o campo.
O desempenho de "Eu Te Seguro" no streaming mostra a presença atual do gênero em um mercado que já é muito diferente daquele que recebeu as primeiras modas de viola gravadas no país.
Com informações de g1.
Foto de capa: Dario Sanches from SÃO PAULO, BRASIL/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)
